O meu monstro debaixo da cama


 Eu não sei se é só comigo e em torno de mim que essas coisas acontecem, mas quero desabafar um pouco sobre isso com vocês. CHEGA DE ME APONTAR O DEDO FALAR A QUE GRUPO EU PERTENÇO! E esse, é o monstro que vive debaixo da minha cama, um monstro crítico (Lorde), chato e com um dedo bem gordo.

 Não sei se isso acontece com mais gente, mas pelo menos no círculo da minha vida, está cheio de pessoas te classificando, mas não como "idiota" ou "bonito", não, é algo mais complexo. Pessoas como eu conhecem diversas tribos urbanas e criamos o costume de nos classificar em alguns estilos, e pior: classificarmos outras pessoas. Idiota ou bonito são coisas que nunca deixaremos de classificar os outros, é natural do ser humano. Mas estilos, tribos urbanas e até sexualidade estão sendo berradas por esse monstro junto com o seu dedo bem grande para mim e pra muitos conhecidos meus.

 Dois anos atrás, eu tive uma professora de "Atualidades" muito querida e inteligente. Todos nós sabemos que aqueles que estudam coisas relacionadas a sociologia pensam de uma forma diferente e interessante, não foi diferente com ela. Ela criou um diálogo, uma vez, na sala sobre a questão de ser indígena. Não é porque você nasceu numa tribo que você será um indígena, o que te tornará indígena é se você tem laços com tal tribo e se identifica, se vê como um indígena. Você pode muito bem ter nascido em uma tribo indígena e não se ver como um índio, você só será se você se identificar como um. Ok, mas o que isso tem a ver? Tem a ver que não é diferente com tribos urbanas, estilos, sexualidade e até religião.

 Exemplo: se eu usar roupas retrô, maquiagem olho de gatinho, ouvir músicas rockabilly e tudo mais que nós identificamos como rockabilly, mas eu não me ver como uma seguidora do estilo, EU NÃO VOU SER ROCKABILLY. Não é você me apontando o dedo que me fará me ver como uma rockabilly, me fará ser uma.

 Pois bem, agora vamos a parte de no que isso me afeta. Eu gosto de VÁRIOS estilos, mas tenho épocas que me apaixono por alguns e começo meio que "a seguir" o estilo para conhecer mais, porém eu nunca chego a me identificar como uma "punk" ou "indie" ou qualquer outra coisa. Eu me identifico como eu, Foxy, euzinha e eu sou eu. De todos os estilos que eu gosto, eu pego referências, inspirações e me visto como eu me sentir bem. Eu me visto para mim, para minha memória, meu próprio deleite de estar bonita e para meu espelho. Se você gostou do jeito que me visto ou não, não posso fazer nada, mas não venha com o maldito dedo começar a me classificar em grupos e subgrupos do alternativo.

 Isso quer dizer que é para pararmos de inventarmos estilos? NÃO, de modo algum. Devemos SIM criar cada vez mais estilos e tribos urbanas, o que não podemos é classificar os outros. Até porque precisamos dessas definições sobre o que é o que para pegarmos referências ou seguirmos fielmente tal estilo. São bons para nós, mas usamos de maneira errada.

 No mês passado, como alguns sabem, estive em São Paulo e fui no bairro da Liberdade procurar algum vestido Lolita. Não encontrei, mas achei um lugar que faz encomendas. O homem que trabalhava lá era super simpático e começou a me perguntar sobre estilos, como eu queria, etc. Nessa conversa gostosa, ele perguntou se eu sou do tipo que segue o estilo ou que é mais para tendência. Estranhei, eu não curto "modas" e não entendi direito a pergunta dele, mas ele foi super legal e me explicou. Na verdade, ele me perguntou se eu sou do tipo que segue um estilo como um modo de vida ou do tipo que gosta de várias coisas e procura referência para se vestir em tudo. Lógico que eu sou do segundo tipo, e com essa história, eu quero deixar claro que você é livre SIM para seguir fielmente qualquer estilo que quiser, com um porém: não venha com a história de poser.

 Ah, os posers! Quem não se lembra da piração geral na internet de classificar todos como posers de tudo, principalmente quanto a "ser rockeiro", ou curtir tal banda. EU NÃO SOU OBRIGADA A SABER DE TUDO. Claro que eu concordo que a pessoa deve dar uma pesquisada sobre o assunto antes de qualquer coisa, mas se ela não pesquisar, não somos nós que deveríamos ir lá e oferecer ajuda? Não somos nós que reclamamos do ensino nas escolas brasileiras mas esquecemos de ensinar amigos e conhecidos? A hipocrisia é natural do ser humano, mas podíamos ser menos. Ajudar o próximo não é só dar pão para o mendigo ou o ombro pro amigo, é também ensinarmos os outros, passarmos o nosso conhecimento. Não precisamos ser velhos e ter netos para isso, podemos fazer agora, nesse instante e já colaborar com um mundo melhor.

 "Ah, mas eu sou fã da banda há mais tempo!"
 E dai? Gostar de algo há mais tempo não te faz mais fã. Reclamamos do capitalismo, mas ultra valorizamos algo bem característico do sistema: originalidade. Muitos odeiam quando outro começa a gostar das mesmas coisas que ele. Eu concordo que em trabalhos artísticos, os originais devem ser valorizados. Mas em questão de nos vestirmos, deve haver mais de uma pessoa usando a mesma roupa que você por ai. Em aparência é muito difícil ser completamente original. Pensamos demais em nos diferenciar dos outros que esquecemos que o real valor é se sentir bem com o que você vê no espelho.

 Junto com onda de "posers", para quem passa muito tempo na Internet, sabe que veio também a onda de "eu sou homossexual" e, principalmente, "eu sou bi". Quero começar a falar disso com: QUEM É VOCÊ PRA FALAR DE QUEM A PESSOA GOSTA OU NÃO???????? Você não sabe o histórico da pessoa nem os sentimentos dela e ponto, parece que somos crianças. Como ser homossexual, ou bi, é relacionado a ser diferente do esperado da sociedade, alguns começaram a falar que não são héteros para tentar se diferenciar ainda mais do "normal". Mas se a pessoa é ou não, o problema é dela, ela que quebre a cara ou não na hora, você não tem nada a ver com isso (a não ser que esteja gostando da pessoa). Já tive uma amiga que foi a chamada "bi por modinha" e eu sei que no fundo, ela é hétero, e por respeito às minhas amigas homossexuais, tentei mostrar pra ela que não era assim. Ela praticamente se considerava bi por achar alguma garota gostosa/bonita. São questões delicadas, não é só gostar da aparência, é gostar mesmo da pessoa. Com essa onda e esses malditos dedos que apontam, creio que muitos bissexuais se esconderam, bis que estavam quase se identificando como são. Nós lançamos pragas a alguns, mas o vento leva para outros também.

 Em resumo, o que eu quero dizer aqui é: sejam vocês, tentem ser menos hipócritas e ajudem os outros. Por favor, parem de nos classificar que já estamos no século 21. Podemos ser melhores do que isso

Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...